segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

FUTEBOL E VINHO: QUANTO MAIS VELHOS, MELHORES

1. FUTEBOL DOS TEMPOS DE DON DON NO ANDARAHY – Vocês teriam coragem de sentar na cadeira de um dentista que se chamasse MARRETA ? Só louco, não é ? Pois o meu dentista é o Marreta, vulgo Ronald Alzuguir, meu amigão, colega de turma desde o 2º. Ano Primário até o 3º. Ano Científico. Primeiro aluno brilhante e orador de sua turma na Faculdade Nacional de Odontologia da UFRJ. Caráter íntegro, ser humano de primeira categoria. Graças a seus passes magistrais fui Campeão de Futebol e artilheiro (com 8 gols) dos Jogos Colegiais do Rio de Janeiro pelo Mello e Souza. Ronald foi craque de futebol profissional do Botafogo, do Guarani e do Flamengo, além de ”bilula” do Seu Nenem, no Americano, time famoso do futebol de areia em Copacabana. O apelido Marreta era por causa da sua virilidade natural como bom half back direito... É, naquele tempo a nomenclatura ainda era inglesa: eu, por exemplo, era center forward. Pois bem: só agora descobri que Ronald tem um blog no qual conta as histórias deliciosas que viveu com Garrincha, Newton Santos, Manga, Zezé Moreira etc de um futebol ainda romântico, que já não existe mais. Amantes do futebol, visitem http://marretapopular.blogspot.com que vocês vão gostar ! E foi vendo o blog do Ronald que me lembrei do primeiro jogo de futebol profissional a que assisti. Infelizmente, só recordo que estava com meu primo Amilcar em uma arquibancada de cimento e o jogo corria lá embaixo. Como Amilcar era vascaíno, o jogo só podia ser do cruzmaltino... Mas é só. Porém do segundo jogo a que assisti, desse eu me lembro muito bem: Flamengo x Vasco, 1944, campo da Gávea, decisão do tricampeonato para os rubro-negros. Na época eu era flamenguista. Meu pai torcia pelo Flamengo...Quem me levava aos jogos era um amigo dele, Dr. Borges, da sua roda diária de pôquer – todas as noites, religiosamente, tinha jogo na minha casa. Dr. Borges, sempre de charuto na boca, me pegava pela mão e lá íamos pela Visconde de Pirajá, onde morávamos, até o Jardim de Alah. Passado o canal, chegávamos ao ponto do vendedor de laranjas, com aquela maquininha de manivela e roda dentada que ia tirando a casca da fruta em tiras fininhas, certinhas. E que tinha um canivete muito afiado, com o qual cortava a parte superior do fruto já descascado e sempre muito doce, gostoso como não se vê mais...Chupando laranja, embicávamos para dentro da favela, a famosa Praia do Pinto, cortando caminho. Passávamos pelas balisas impecáveis do campo de terra do glorioso time da favela – o Águia Futebol Clube – e pouco depois chegávamos às roletas do Flamengo. Dr. Borges era sócio-proprietário e ficávamos na Tribuna de Honra. Ao lado, à direita, acima da Tribuna, as cabines de rádio e os locutores célebres da época: Ary Barroso, Gagliano Neto, Oduvaldo Cozzi. Meus olhos brilhavam de encantamento. Entraram em campo pelo Flamengo nesse dia: Jurandir, Newton e Quirino; Biguá, Bria e Jayme; Valido, Zizinho, Pirilo, Tião e Vevé. Naquele tempo os jogadores entravam com a bandeira do clube que minutos antes passeava pelo campo, levada por moças que iam angariando as moedas jogadas pelos torcedores para completar as eternas obras das gerais, lá do lado da Lagoa, no precário Estádio da Gávea. Antes ainda, entravam garotos-carregadores com grandes painéis de propaganda e davam a volta olímpica no campo anunciando Cafiaspirina, Urodonal, Leite de Rosas, Aspirina Bayer, Hidrolitol, Eucalol, Palmolive e coisas assim... Publicidade móvel, precursoras das placas atuais. O barulho era uma constante, com a Charanga do Jayme de Carvalho a todo pano. O técnico era Flávio Costa, conhecido como “o marido de Dona Florita Costa” – a qual mandava em tudo, até na escalação do time... Dizem ! Naquele dia, o maior jogador brasileiro de todos os tempos – na minha modesta opinião - o mestre Zizinho, deu um show de bola e nem o elegante center half do Vasco, um craque excepcional, o Príncipe Danilo Alvim, conseguiu pará-lo. Quase no final, apesar do Vasco ter um timaço, veio o gol de Valido, cabeçada da entrada da grande área, que o goleiro Barqueta não conseguiu pegar. Um delírio espantoso, Flamengo tricampeão, uma loucura total ! Dr. Borges pediu que eu corresse e pegasse a bandeira de córner do lado esquerdo das balisas onde o Barqueta levou o golaço do Valido. E assim foi feito...Eu tinha 7 anos e corria muito rápido. (O neto do Dr. Borges, Getúlio Brasil, que foi Vice-Presidente do Flamengo, me disse recentemente que essa bandeirinha, essa peça histórica de nosso futebol, deve estar com seu irmão mais velho, o Áldano). Na volta, mais Praia do Pinto, já em festa, com as “tendinhas” cheias de torcedores “enchendo a cara” de cachaça e cantando “Flamengo, Flamengo, tua glória é vencer...” Inesquecível ! Muito bom, como diz a canção: “Nossa vida era mais simples de viver. Não tinha tanto miserê, nem tinha tanto ti-ti-ti. No tempo que Don Don jogava no Andaraí...”
2.CUIDADORES CUIDADOSOS – Preocupa-me muito o despreparo de nosso País para o envelhecimento acelerado de nossa população. Em blog anterior, observei que as Unidades de Polícia Pacificadora - UPPs do Rio de Janeiro são acompanhadas de várias melhorias sociais para as favelas arrancadas do poder dos traficantes, mas nunca reservam uma sala que seja para que os velhos da comunidade possam ali passar o dia, bem cuidados e protegidos, enquanto seus parentes mais jovens vão trabalhar. Uma lacuna grave, sanável a baixo custo, pois também assinalei que os próprios idosos se entreajudariam, de modo a minimizar despesas com profissionais. Agora, ao removerem favelados das áreas de risco para outras moradias, dignas e seguras - providência que, como as UPPs, todos fluminenses devem aplaudir com entusiasmo - as autoridades continuam omitindo esse componente de política social que considero essencial ao bem estar da população idosa e facilitadora da empregabilidade de seus filhos e netos. Em contrapartida, gostei muito de ler no NEW YORK TIMES que, nos Estados Unidos, em 2008, 28% dos 3,2 milhões das cuidadoras domésticas de idosos americanos tinham 55 ou mais anos de idade. Estima-se que em 2018 o número total desse tipo de trabalhador, nos lares e instituições dos Estados Unidos, chegará a 4,3 milhões. E que o contingente das cuidadoras com 55 anos e mais vai crescer 30%. Sua trajetória profissional é geralmente a mesma: zelaram por algum familiar idoso e após sua morte ingressaram no ramo. Têm grandes vantagens comparativas: conhecem o estresse familiar nessa situação, respeitam a idade, não olham a velhice como uma doença, trocam experiências com os idosos e há mútua empatia. Sua limitação, em geral, é física: não poderem tratar de doentes que precisam erguer seguidamente. No mais, são ótimas. Carinhosas. Cuidadosas. Esse fenômeno, verificado nos Estados Unidos, ainda tem outra vantagem importantíssima: cria empregos para idosos, possibilitando que o conceito de “envelhecimento ativo”, muito praticado também na Europa, seja viabilizado. No Brasil, por exemplo, a empregabilidade da turma da terceira idade é praticamente nula, qualquer que seja sua qualificação e não se veem políticas públicas realmente eficazes para minimizar essa exclusão laboral, com a qual o País perde muitos braços e cérebros ainda aptos a contribuir para o desenvolvimento nacional. Tema que espero não faltar quando da tão ansiada reforma da legislação trabalhista brasileira.
3. UPPs RENTÁVEIS – Boa notícia para os cariocas. Os imóveis desvalorizados, por estarem situados nas áreas de metástase urbana, causada pela proximidade de favelas, estão recuperando quase imediatamente seus valores originais após serem resgatadas pela implantação das UPPs. O aumento da arrecadação futura, pelo Estado, do respectivo Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), vai pagar boa parte do projeto. O restante, o aumento do ICMS do comércio revitalizado nessas mesmas áreas acabará cobrindo a médio prazo. A Política Estadual de Segurança deu tiro certeiro na mosca, com bala de prata !
4. EUROTURISMO EM CRISE – A crise bateu forte, principalmente, nos países europeus que dependem muito do turismo: Espanha, Grécia e Portugal. Caíram os fluxos turísticos provenientes dos Estados Unidos e de outras nações européias e a despesa média unitária dos viajantes e o impacto foi desastroso. O desemprego espanhol já supera 20% e em Portugal está em 10,5%. Essa taxa portuguesa é inédita, Portugal sendo historicamente um país de baixos níveis de desocupação. Tive um amigo português, humilde, trabalhador braçal, que ocasionalmente desempregado se queixou a mim, desesperado, dizendo: Doutor, estou perdido, porque a única coisa que sei fazer é trabalhar ! O esforço português se concentra nas exportações para os países africanos lusófonos, que estão crescendo aceleradamente Aliás, Portugal aposta muito no mercado da nova classe média brasileira para comprar seus maravilhosos vinhos, pois nosso País consome só 2 litros por habitante por ano e há larga margem para crescimento. Portanto, agora no inverno, vamos ajudar a indústria vinícola dos “patrícios”, minha gente !